“Viver dói”, parafraseando Clarice Lispector

Dois princípios norteiam o zen budismo: impermanência e desapego. Não posso dizer com precisão qual dos dois é mais complexo para praticar, mas é certo dizer que ambos são forças inexoráveis no transcorrer da vida.

A contemplação da natureza nos oferece esta certeza sobre a transformação. Não há nada mais permanente do que a força da mudança.

Uma semente para ser árvore precisa aceitar romper e depois brotar. Uma imensa figueira muitas vezes deixa de existir, apodrecem seus galhos, seca seu tronco e ela tem na sua finitude transformação em material orgânico para fazer brotar mais vida.

O homem faz parte dessa mesma ordem de valores para a vida. A vida humana é sensível aos mesmos mandamentos de impermanência e desapego: não se é jovem para sempre, nem velho para sempre…

As crianças parecem perceber com mais naturalidade a diferença de um dia depois do outro.

Certa vez, almoçando com minha filha caçula eu reforcei orientações para combater um mau comportamento dela. Ela não hesitou em responder: “Mãe, isso foi ontem, hoje já é outro dia”.

Sim, o dia de ontem já passou e nós hoje não somos os mesmos. Tudo muda o tempo todo, e sem medo de ser brega como eu assumidamente sou, até vale cantarolar a canção de Lulu Santos essa hora, como um mantra.

“Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia, tudo passa, tudo sempre passará…”

Márcio Araújo, escritor e roteirista de programas de televisão, conta seis histórias sobre transformação em seu livro “Figurinha Carimbada”.  A abertura do livro traz uma citação de Clarice Lispector:

“Viver dói.”

E eu volto para a semente tão perfeitinha quando intacta depois cercada de terra, água, para romper-se violentamente em raiz e finalmente ser árvore. Talvez, terá flores. Talvez, dará frutos. Talvez, os melhores frutos já saboreados venham daquela semente dilacerada.

Das histórias contadas por Márcio Araújo, há mudança de cidade que sacode a vida do garoto tímido que finalmente encontrou um amigo na escola; perda da visão e todo desafio de se reconectar com a vida por meio de outros sentidos, transformando também as expectativas da família e a convivência com os amigos; morte do amigo canino; compreensão da desigualdade social; reestruturação da família sem a mãe e chegada de uma madrasta.

Personagens encantadores, linguagem simples de fácil comunicação com o leitor, histórias que recontam episódios de superação da dor enfatizando a beleza da vida.

Recordo que, quando no teatro, a peça encenada pelo próprio Márcio Araújo, foi considerada como depressiva por parte da crítica. Todavia, assisti o espetáculo com minha família toda, no SESC Santo André, e a sensação, na saída do teatro, era de comunhão entre as pessoas da plateia. Todos nós éramos iguais na impermanência e no desapego, independentemente dos cargos ocupados, dos salários, das cores dos cabelos ou das peles.

A plateia foi cumprimentar os atores sensibilizada e feliz.

“Lindo espetáculo. Fica no peito uma vontade de agradecer por cada uma das histórias.” Comentei com Márcio Araújo enquanto meus filhos tietavam autógrafos no livro.

O livro foi publicado pela Girafinha e conta com a beleza das ilustrações de Renato Alarcão.

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