Bienal de Livros de São Paulo

 

Visitei a Bienal no começo dos anos 90, aos dezessete anos, para compartilhar uns minutos com um dos meus autores prediletos. O evento era celebrado no Pavilhão do Parque do Ibirapuera, o que gerava ambiente favorável para os aflitos leitores: árvores, flores, caminhos de pedras, prédio alto com uma rampa gigantesca para passear entre copas de folhas verdes. Visão literária de recepção.

Cheguei ao stand da editora ainda cedo, procurei pelo livro do lançamento e perambulei entre prateleiras.

Lá estava ele, sentado ao fundo, distraído e sozinho: Caio Fernando Abreu.

Eu, quem já tinha se perdido em “Morangos Mofados”, se apaixonado no “Os Dragões não Conhecem o Paraíso” e atenta para novas investigações em “Onde Andará Dulce Veiga?”, livro recém-chegado, eu era a trêmula de pavor e admiração.

– Caio Fernando?

– Sim. E você?

– Penélope…

– Ah, Penélope! Que bom que você veio me ver. Senta aí, garota. Você comprou meu livro?

Dei uma risadinha e ele continuou:

– Você leu outros?

– Sim, claro, sou intrigada por você.

Dessa vez foi ele quem soltou uma risada, menos tímida:

– Qual seu favorito?

– Os Dragões…

A conversa se estendeu um pouco mais, mesmo eu sem saber o que falar com aquele homem que tanto me dizia através de palavras impressas em páginas de livros.

O autógrafo foi inesquecível dedicatória. Não ouso transcrever aqui as palavras de Caio Fernando porque elas repercutem significado somente para mim.

Caio Fernando Abreu diante de mim em matéria e espírito, abraços e beijos; uma figura carinhosa antes habitante somente do meu imaginário de leitora.

Creio ser possível uma troca sublime de impressões nos encontros, por isso levo comigo um rastro luminoso dos minutos compartilhados com este escritor (e a lástima por ter ele partido tão cedo deste mundo).

A temporada de Bienal sempre acaba retocando as cores da minha saudade.

Hoje começa mais um grande evento para promoção do mercado editorial, atualmente no Pavilhão de Feiras do Anhembi.

O número de editoras aumentou e muito, o número de pessoas que visita o evento nem se fale.

São várias atividades para entreter todo tipo de público, mas creio que o encontro com quem “inventa” o livro ainda é o ponto alto do evento.

Recordo que, naquela feira que visitei nos idos anos 90, a fila para conseguir um autógrafo do Ziraldo, autor do fantástico “O Menino Maluquinho”, dava voltas pelo corredor tornando estreita a passagem. Mas, afinal, quem não gostaria de dar um abraço no Ziraldo? Eu adoraria.

Certa vez, a amiga poeta, também editora – bravamente resistente – no Grande ABC do selo Alpharrabio, Dalila Teles Veras, comentou comigo seu encontro com José Saramago. Fiquei atônita, enlouquecida talvez (sou sempre exagerada nos entusiasmos). Por minha vez, conviver com ela – o que já é muito – trazia atmosferas de outros escritores admiráveis, entre eles Saramago.

Nos tempos de hoje, onde a mídia faz crescer a popularidade de ídolos com tão pouca relevância intelectual, gosto de perceber empolgações em leitores que desejam encontrar com autores e ilustradores numa feira de livros.

Assim renovo minha esperança no homem e sigo – persisto – escrevendo as minhas histórias.

Em tempo, a notinha: Bienal de Livros de São Paulo, de 9 a 19 de agosto, no Anhembi, ingressos no valor de R$ 12,00, meia-entrada no valor de R$ 6,00, livre acesso para profissionais do livro e imprensa cadastrada para cobertura do evento, maiores informações e programação dos dias de exposição no site: www.bienaldolivrosp.com.br

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3 comentários em “Bienal de Livros de São Paulo

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