Viagens às Terras de Portugal, de José Santos

Entrava em casa e ele já me perguntava: “Já comeste?”

A mesa sempre com fartura e simplicidade de formas apresentava convidativos pães, sardinhas refogadas com tomates e cebolas, pastéis de bacalhau, batatas cozidas, uvas, limas, bolo quentinho a sair do forno.

Estejam nas terras de Fernando Pessoa, ou bem do lado de cá deste vasto Oceano Atlântico, por onde cruzou Cabral e outros (também vieram Oliveiras, Pereiras, Martins, Ferreiras, Coutos, Monteiros, Roques, Limas, Santos…), os portugueses sabem receber com mesa posta. Pão, vinho, muitas vezes até um São José de azulejos ou uma imagem de Nossa Senhora de Fátima, certamente um cheirinho de alecrim que aguce o olfato e presenteie o paladar.

Uma alegria contagiante de pessoas que gostam de falar alto.

Meu bisavô entoava para seus descendentes a sabedoria do seu legado:

“O que se leva desta vida, é o que se come, o que se bebe, o que se brinca”.

Junto da mesa farta, a família portuguesa educa os seus com ditados e trovinhas. Ao menos foi assim que cresci, ouvindo o pai reafirmar suas ideias com rimas e dizeres populares.

Explana José Ouverney em seu site Falando da Trova, que a trova “é anterior à formação da língua portuguesa. Remonta ao século 13, aparecendo ainda em galego-português como refrão nas Cantigas de Santa Maria, por exemplo, da autoria de D. Afonso X, rei de Leão e Castela.”

Galego-português? Ah, pois, então está explicado de onde apareceram tantas trovas na minha família.

As trovinhas são uma legítima expressão cultural portuguesa e também brasileira, afinal somos filhos da mesma língua e perpetuamos as tradições que dela defluem. Mas o que são trovas? Trova é um poema de única estrofe com quatro versos rimados de forma alternada ou cruzada.

As trovas surgiram quando a poesia passou a ser acompanhada de música. Explica-se daí a sonoridade de cada estrofe.

As quadras também apresentam estrutura semelhante em poemas mais longos.

Na brincadeira das quadrinhas brinca muito bem o poeta José Santos, com quem estive recentemente para lançamento do seu livro “Viagens às Terras de Portugal”, publicado pela Editora Peirópolis, de São Paulo, com ilustrações lindas e divertidas do artista português Afonso Cruz.

 

José Santos, neto de portugueses, é mineiro, mas vive em São Paulo desde 1991.  É autor de diversos livros para crianças e jovens, também pesquisa a vida e obra de autores brasileiros pelo Museu da Pessoa, do qual é diretor e coordenador do projeto “Memória da Literatura Infanto-Juvenil” ( http://www.museudapessoa.net/).

 

Afonso Cruz é português de Figueira da Foz, estudou nas Belas Artes de Lisboa, no Instituto Superior de Artes Plásticas da Madeira e na António Arroio. É escritor, músico, cineasta e ilustrador ( http://afonso-cruz.blogspot.com.br/).

 

 

Pessoas afáveis que transbordam simpatia para seus feitos, e neste quesito estão em comum acordo José Santos e Afonso Cruz; por isso o livro está delicioso, tanto nas letras quanto na imagem, além dos bons cuidados da editora que devem ser aqui mencionados.

Mas não se fala de rima com prosa, nem se saboreia um livro sem glosa, por isso ouso transcrever o poema “Em frente à capela de Nossa Senhora do Ó”:

Nossa Senhora do Ó,

Padroeira do alfabeto,

sou um menino tão só,

preciso tanto de afeto.

Nossa Senhora do Ó,

protetora das vogais,

ando vivendo tão só,

nem dormir consigo mais.

Nossa Senhora do Ó,

que é das letras amiga,

já me sinto tão só,

cante agora uma cantiga.

Ó, minha Nossa Senhora,

me ensina a conjugar

o presente e o futuro

do ingrato verbo amar.

 

Presenteio os leitores desta coluna com o gostinho da poesia de José Santos sem retirar o sabor do prato principal. Convicta de que “nem só de pão vive o homem”, utilizo o poema para aumentar a fome e a vontade de passear na Livraria para buscar o livro “Viagens às Terras de Portugal”.

Depois, meu amigo leitor, “pá tua rica saúde” como nos diria outra querida amiga minha de além-mar (que também sabe ser poeta), com livro em mãos só lhe restará devorar os versos, em voz baixa, em voz alta, sozinho ou cercado de afetos, com uma irresistível mesa farta de boas palavras.

Poesia é banquete.

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