A bruxinha e o Dragão

Existem menininhas voluntariosas por aí. Sei de uma que aos quatro anos, depois de um sermão do papai sobre seu comportamento e suas possíveis escolhas, entoou sua filosofia como quem canta um mantra:
– Cada um cada um!
Sim, é verdade. Cada um sabe melhor do que ninguém todos os burburinhos que sopram dentro de si. Mas, é claro que naquele tempo, com a pouca representatividade dos seus quatro anos (mesmo que isso revelasse uma assustadora imponência), o papai respondeu:
– Sim, cada um cada um, mas hoje seu cada um é menor que o meu cada um.
A menina cresceu e se tornou mamãe de outra menininha que, superando todas as expectativas, respondeu àquele mesmo papai que hoje é seu vovô:
– Eu não gosto de precisar.
Puxa vida, mas logo aos três anos tanto furacão de ímpeto? Assim pensou o avô:
– Tinha de ser filha da outra menina que dizia “cada um cada um” quando era corrigida no curso de suas vontades.
Ai de quem se atrevesse no seu caminho, caso a menininha mãe ou a menininha filha fosse uma bruxinha voluntariosa cujo papai mago fosse capaz de realizar todos seus desejos. Ai de quem…
Não obstante sua incrível carreira como ilustrador, inclusive tendo recebido prêmio de melhor livro infantil em 2010, por “Um sujeito sem qualidades”, Jean-Claude R. Alphen merece ser citado por suas melhores obras: Clarice e Jujuba. Duas garotinhas de olhares espertos e corações afáveis que, para minha sorte, tive o prazer de conhecer e de abraçar e de falar e de rir com tantas histórias.
Bom, ao que tudo indica, as menininhas voluntariosas sempre tomam a cena e não poderia ser diferente aqui com as presenças de Clarice e Jujuba
Por sua vez, Jean-Claude representa bem o papai mago: basta querer saborear seus trabalhos para ver espalhar tanta magia.
O último lançamento é o livro “A bruxinha e o dragão”, um conto de fadas que não mostra princesa em apuros, mas se farta de dragões espalhados pelas páginas.
Dragões de todos os tipos: mansos, calados, “baforejantes”, com chifres, bravos, voadores, multicoloridos, pálidos, gorduchos, com bocarras enormes.
Dragões que querem ser escolhidos por uma menininha voluntariosa que não quer qualquer bicho de estimação. Não pode ser mesmo qualquer um porque ela não é qualquer criança.
“Para ela, tinha que ser um Senhor Dragão, o maior, o mais feroz, o mais colorido, o que voasse mais alto e o que tivesse mais chifres.”
Por sorte, a menininha tem um papai mago capaz de realizar todas as suas vontades.
Vieram bichos de toda a parte para serem transformados em dragões perfeitos, mesmo os jacarés e até algumas iguanas “com mania de grandeza”.
Mas a menininha não se satisfaz fácil assim. Ela tem algo em mente e enquanto esse “algo” não se realize, bem, ela certamente não sossegará.
–  “Entre tantos distintos cavalheiros… não vejo meu dragão.”
Ah mocinha… Assim fica mesmo difícil.
Mas se o papai é capaz de qualquer coisa para ver seu pequeno torrão de açúcar feliz, a história pode virar para outro lado. Papai pode até se transformar em dragão.
Bem aqui, miudinho e entre nós – eu e vocês, com letras mínimas para que ninguém nos leia, tenho que confessar que fiquei intrigada imaginando qual das duas menininhas de Jean-Claude mais espelha a personalidade da bruxinha da história. No começo até apontei direção para uma delas, mais loira e mais teimosa (risos), mas depois fiquei certa de a bruxinha do livro é uma mistura generosa de tudo que um papai pode ter de suas filhas.


Detalhe: eu também tenho uma menina que, já aos três anos, respondeu para o meu papai: “Eu não gosto de precisar”, e nem preciso dizer quem foi autora da célebre frase “cada um cada um”.
Menininhas voluntariosas crescem e aprendem a domesticar seus dragões internos. Muitas têm dragões imensos, mais fortes, com mais chifres, que voam e fazem rebuliços enormes.
Fundamental é ter um papai mago que saiba reinventar cada dia com realces multicoloridos de afeto e generosa simpatia os rumos da vontade de suas pequenas bruxinhas.
Eu tenho um papai assim e acho que as meninas Clarice e Jujuba também sabem como é bom poder usufruir de tanta magia.
PS: O livro “A bruxinha e o dragão”, de Jean-Claude R. Alphen, publicado pela Editora Companhia das Letrinhas, é facilmente encontrado pela capa com o dragão mais reluzente!
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