A Formação de Leitores

Recentemente fiz amizade com a poeta e escritora Cláudia Marczak, no entanto, não sabia que a atividade profissional de Cláudia era a educação. Professora do ensino fundamental e entusiasta da leitura, Cláudia me convidou para uma conferência virtual com seus alunos. Fiquei entorpecida com a qualidade das perguntas dos pequenos leitores e envaidecida com o carinho deles. Depois disso, foi inevitável convidar a professora para dar mais imaginação nesta coluna, compartilhando a experiência de formação de leitores.

“Era uma vez… Embora essa história não seja um conto de fadas, poderia começar com “Era uma vez uma pessoa que tinha um (ou melhor) vários sonhos”.

No início não havia castelos, princesas, bruxas e heróis. Pelo menos não da maneira que imaginamos. O ano também era bem real, ano dois mil. Cheio de lendas, mistérios e profecias fatalistas, marcou o começo do meu trabalho na prefeitura da minha cidade.

Assumi meu posto de professora em uma escola pequena no alto de um morro. Era uma escola bonita, nova, ladeada por muito verde e moradias simples, da periferia quase esquecida da cidade. Recém-inaugurada, viria suprir uma necessidade antiga dos moradores da região. Como eu nunca trabalhara no serviço público, tudo ali era novidade para mim.

Protocolos cumpridos, breves apresentações e comecei meu trabalho. Trinta e seis crianças se apertavam na sala com estrutura adequada para menos alunos. Vinte e cinco meninos, onze meninas olhavam para mim com olhos curiosos e ansiosos, não menos que os meus.

Para primeira aula Vinícius de Moraes era uma excelente companhia: “A Casa”, poema musicado, familiar, ótimo para o início de conversa. Terminada a escrita na lousa, virei-me satisfeita. Os olhos agora eram assustados. A maioria não sabia ler e não faziam ideia do que estava escrito. Não era o que eu esperava, mas tornou-se um dos meus primeiros desafios. Cantei a música (pobres crianças) e prossegui minha jornada.

Os dias seguintes foram de descobertas. Minha classe era absolutamente irrequieta. Eu precisava de algo a mais, precisava nutri-los com sonhos. Sou amante dos livros, e sempre tivera vontade de contar histórias. As histórias têm o poder de encantar e aquelas crianças não tinham muitos motivos de encantamentos. Moradores de um bairro pobre conviviam diariamente com crimes, tráfico, coisas que não deveriam fazer parte da vida de ninguém, muito menos dos nossos pequenos.

Com a ideia e mente trouxe alguns livros de casa. Mas não bastava apenas contar a história, eu queria que a leitura fosse um momento mágico, que os acalmasse e os transportasse para outros mundos, que eles entendessem que é importante e que liberta para diversas possibilidades. Então um pequeno ritual foi criado: após o recreio, eles se acomodavam em suas carteiras, a luz era apagada e o bordão recitado:

– Agora é hora….

– De ouvir histórias! – as crianças respondiam.

– E hora da história é….

– Luz apagada, cabeça abaixada e imaginação aberta!

Pronto! Eles entravam no mundo das histórias que eu contava. Uma por dias, todos os dias. Clássicos, autores atuais, poetas, artigos científicos para crianças, todos os dias havia o nosso momento de viajar pelo mundo das palavras. E no final tudo terminava com:

– Entrou por uma porta e saiu pela outra e quem quiser que conte outra!

O hábito de ler para os meus alunos acompanhou-me por todos os anos que se seguiram. Em locais onde a realidade é cruelmente dura levar a leitura como uma rotina é despertar os pequenos para possibilidades desconhecidas deles.

Acredito no poder da palavra e que livros poderão fazer de nossas crianças, adultos mais cultos, informados, generosos e humanos. Não sei quantos e quais livros li nesses mais de dez anos em que a hora da leitura foi realizada, mas tenho a certeza que durante a leitura minhas meninas viravam princesas e meus meninos tornavam-se heróis de suas aventuras, que suas casas eram castelos, que viajavam pelo espaço, que experimentavam o sabor das infinitas possibilidades. Espero que eu tenha contribuído para que possam ser no futuro, autores de suas próprias histórias de vida.”

Cláudia Marczak mantém um blog dos seus escritos destinado para adultos, (link), sua poesia também pode ser lida no site http://www.insite.com.br/art/marczak/ e http://presencieocaos.blogspot.com.br/ Os registros com as experiências de leitura e elaboração de texto junto aos alunos da educação fundamental é registrada em http://historiaseconversas.blogspot.com.br/.

nota: toda quinta-feira no site http://www.abcdmaior.com/o Toda Hora Tem História aparece para brincar com palavras, revelar livros e incentivar a leitura.

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