Antes de Dormir

Engraçado me lembrar desse livro. Comprei o exemplar em um sebo no Bairro do Catete na Cidade do Rio de Janeiro. Ainda está nele anotado o valor do preço que foi pechinchado por minha amiga. Ela pechinchava tudo, até mesmo os sorvetes sem marca que comprávamos aos montes dos ambulantes.

– Senhor, o livro está rasgado aqui, olha só… Eu levo por dez.

E é claro que levamos o livro para casa.

As férias da minha amiga com seus filhos na minha casa eram dias de paparicos, praia, parque, feiras de badulaques, histórias, geladeiras forradas de comidinhas e tudo que deixasse aquelas crianças felizes.

Depois de um dia inteiro de atividades a hora de dormir era composta pelo ritual do banho, massagem e história. Eu me ocupava das massagens. A mamãe deles sempre contava uma nova aventura para embalar o sonho daquela noite.

Foi por isso que compramos o livro com dez histórias engraçadas e inteligentes que serviriam como uma espécie de calendário das férias na casa da titia. Toda noite marcaríamos um dia do período de férias com uma nova história. Os olhinhos curiosos dos pequenos saltavam.

Acredito que o menininho tenha preferido a história do tigre, o brâmane e o chacal, filósofo pequenino que ele era. Um dia eu pedi que ele tomasse o lanche à mesa para não sujar o sofá, ele me respondeu que não e que eu nem mandava ali, quem mandava era o tio. Bom, eu disse que mandava ali sim e ele me respondeu:

– Tá bom, você pode mandar aqui… Mas saiba que você não pode mandar no mundo.

Quanto à menina, suponho tenha gostado mais do pequeno chacal e o crocodilo, ardilosa que ela era para conseguir satisfazer seus pequenos desejos. Sempre visitávamos as feirinhas em busca de tesouros para nossa princesa: um par de novas presilhas para os cabelos, um estojo de lápis de cor, uma pulseirinha colorida.

– Uma história apenas e amanhã teremos mais!

– Mas mãe, só mais uma…

Toda noite as tracinhas do livro repetiam em uníssono. Queriam mais, queriam que repetisse uma já contada, queriam olhar as ilustrações, queriam ficar por ali até as tantas da madrugada.

Nós mantínhamos a promessa de apenas uma história, porque nós éramos a própria resistência feminina lutando numa batalha perdida contra um exército de duas crianças incansáveis. Era muito divertido.

O livro comprado no sebo para entreter meus doces sobrinhos – hoje bem mais crescidos e grandes leitores – ficou sempre na minha casa, iniciando minha pequena biblioteca para a infância.

Talvez, inconscientemente, eu tenha repetido no meu trabalho autoral o nome toda hora tem história por causa daqueles maluquinhos doidos para ouvir um novo conto a cada novo instante. Quem sabe.

Depois chegaram meus filhos e pude apresentá-los pessoalmente ao senhor crocodilo assim como para a dona velhinha tagarela.

O livro se perpetuou encantando novos olhinhos curiosos.

Valeu a pechincha. Valeu o curso avançado de contação de história. Valem mil agradecimentos aos meus sobrinhos e a mamãe deles por terem passado férias lá na minha casa carioca mostrando na prática como funciona bem a viagem nos livros.

“Histórias para todos os dias”, com textos de Natha Caputo e Sara Bryant, edição da Companhia das Letrinhas, é uma saborosa viagem de leitura composta por dez histórias de culturas diferentes, com lindas ilustrações de diversos artistas.

Pechinchem um exemplar por aí!

Leia a Coluna no site do Jornal ABCD Maior:
http://www.abcdmaior.com.br/noticia_exibir.php?noticia=36402

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s