Manoel de Barros

Foi com minha família que aprendi a gostar de poesia sem mesmo saber que tinha poesia naquilo tudo e sem que eles soubessem que ensinavam a gostar de poesia. Enquanto homens cantavam e mulheres respondiam no samba em prelúdio, meu coração se enchia de incomparável alegria.

Soube desde cedo o sabor da palavra.

Foi na praia de Santos junto de minha Tia Marli, a caçula da família do meu pai, que aprendi frases complicadas com palavras intermináveis. Eram os discos do baiano Caetano que rodavam sem parar na vitrolinha portátil cor de laranja.

O trem das cores acendeu meu desejo por adjetivos.

Vitrolas, violões, pandeiros, caixinhas de fósforos ou a batucada na palma da mão, como fazia Cici, a melodia trazia sempre a generosidade da palavra.

Aquilo tudo formava em mim um monte de símbolos capazes de fazer traduzir a beleza das coisicas simples que desde pequena eu aprendi a amar.

No sábado me dei o presente de rever amigos e acabei ganhando outro presente lindo da adorável Juliana Ida (uma menina que sabe fazer porção de coisas bacanas). Vim para casa com o livro “Memórias inventadas para crianças” de Manoel de Barros e, meu desejo de compartilhá-lo foi imediato.

O título do livro já faz contar histórias – minhas, suas, nossas. Um turbilhão de imagens surge na leitura emendando o meu sorriso da criança que insisto ser (definitivamente minha melhor parte mesmo quando pareça ridículo, o que não me desagrada nem um pouco, tão bom esse tipo de ridiculice).

Surpreendente, o livro traz ilustrações repletas de delicadezas da filha do autor, Martha Barros. Fico pensando na maravilha que é pai e filha brincando juntos na poesia da palavra e da imagem, uma tão imprescindível quanto à outra para a leitura dos nossos sentidos.

As histórias são como uma caixa de coleção de conchas com cheiros de todas as praias visitadas, as que ainda serão e também as inventadas, ou seja, seria impossível escolher qual história mais afável e mais querida.

Uma delas é “O apanhador de desperdícios”, na qual demoro pensando nas palavras boas de traduzir nossos silêncios…

Eu seria mesmo incapaz de traduzir a graça da poesia de Manoel de Barros e toda grandeza da obra, por isso resolvi comentar tal leitora empolgada que traça o livro sem desgrudar um minuto.

O livro “Memórias inventadas para crianças” convida a apreciar as tais coisicas simples que são essenciais para a compreensão da vida. A poesia está ali até derreter num mar de improvisos, riscando desenhos no chão, inventando coisas, desdobrando palavras, arrancando telhados, contando o fantástico e, sobretudo, mantendo-se simples. Manoel de Barros nos visita. Manoel de Barros está ali no quintal contando suas histórias de menino enquanto mãe põe uma bacia de pitangas para comermos – com bicho e tudo.

Uma advertência do ministério da leitura: ler algo tão bom faz pensar livre e desata o nó do peito para sentir. Criança acostumada desde cedo com esse tipo de leitura certamente virará algum tipo de monstrinho pensante encantador.

Quem procura ser poupado desse ou daquele conteúdo ou deseja algo politicamente correto, melhor não dar voltas com Senhor Manoel de Barros. Aqui a vida pulsa integralmente, um exemplo é a história do descarrilhar da lacraia que aproveita uma malvadeza para pensar ser a obra de Deus tão melhor que a obra do homem.

Recomendado até o último suspiro MANOEL DE BARROS em “Memórias inventadas para crianças” (sempre para todas as idades e quanto mais ler dela melhor), com iluminuras de Martha Barros, excelente trabalho da Editora Planeta.
acompanhe a coluna no site do Jornal ABCD maior, todas as quintas-feiras:
http://www.abcdmaior.com.br/noticia_exibir.php?noticia=36229

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